Entrevista com Renata Rosa por Lucas Cabaña no Terreirão do Mundaréu

Foto Lucas Cabaña

Na quarta-feira dia 25/10, nosso amigo jornalista Lucas Cabaña  foi ao Terreirão do Mundaréu e um pouco antes de iniciarmos a oficina, sentou com Renata embaixo das árvores e, iluminados pela luz do entardecer, conversaram por um bom tempo.

Abaixo o texto integral postado por ele no sitio curitibacultura.com.br:

A música brasileira ultrapassa o raio da impossibilidade sonora. A cantora Renata Rosa, radicada na ensolarada Olinda-PE, é prova dessa sinuosa percepção das raízes musicais. Em um encontro no Espaço do Grupo Mundaréu, Renata chega com seu sorriso radiante, e já com o pedido de desculpas pelo atraso. Mas, detalhe esse que não interfere em nada, pelo contrário. Instiga a sede em saber e explorar o que essa rabequeira de mão cheia tem a revelar. Consagrada fora do Brasil, Renata dispensa formalidades.

Nesta entrevista exclusiva ao Curitiba Cultura, Renata (transposta em) Rosa, vai além de uma simples naturalidade despretensiosa em seu jeito sussurrar de falar, e conta devotamente como Seu Luís Paixão foi essencial em sua carreira. “Manto dos Sonhos” é o seu segundo trabalho. O lançamento em Curitiba será nesta noite, que além de se ter a sua bela voz ao ecoar pelas ruelas curitibanas, a Lua Cheia, será um detalhe a parte diante dessa harmoniosa coincidência.

Curitiba Cultura: Então, eu achei bem bacana esse trabalho do Cd. De quem é a concepção, pois achei muito linda a capa, até o próprio cartaz um trabalho tão…

Renata Rosa: Então, a arte é da Luciana Fachini. Ela é designer gráfica. Trabalhou oito anos na Cosac e já fez várias coisas. Ganhou o prêmio TIM pelo disco do Siba, o último dele. Bom, a gente é amiga da faculdade…

CC: Bons tempos?

RR: Bons tempos, uma das minhas melhores amigas, das poucas que eu tenho até hoje assim. Ela acompanha o meu processo dentro da música, dentro da música tradicional, dentro da relação com as artes plásticas. Então, a gente se entendeu muito bem. A ideia do nome do disco “Manto dos Sonhos”, né? Eu estava vindo de uma experiência do sertão. Eu moro em Olinda que é litoral, mas eu tinha passado quatro meses no sertão fazendo uma minissérie, a ´´Pedra do Reino“. E tinha ficado muito exposta àquela luz maravilhosa do sertão, aquela coisa agreste, alaranjado ouro. E uma vez pesquisando livros na livraria eu descobri o Turner, William Turner, aquele pintor inglês que trabalha muito com essas luzes e como a paisagem vai se esfumaçando. Esse é um caminho pro “Manto dos Sonhos”. Quando eu voltei de uma turnê, a gente se encontrou para falar do disco. Uma das pessoas que nos dará a mão será Willian Turner, vamos pegar na mão dele. Ela trabalhou muito com imagens dos lugares que eu frequento. Desde a Aldeia Pankararu Kayas, que são aquelas figuras de palha até o chão, as crianças na aldeia, que é um dos lugares que eu frequento muito. E também uma grande escola de canto. Tem um terreiro de Umabanda da Dona Mira, uma das primeiras imagens, a paisagem da Zona da Mata Norte, que também tem uma luz própria, que é onde eu brinco Maracatu, Cavalo Marinho. A gente foi pra lá pegar um daqueles pores-do-sol sensacionais ‘tem que ser aquela luz da Zona da Mata, então vamos’. Lá a gente fez uma boa parte das fotos e trabalhamos com esses elementos.

CC: Você falou da Umbanda. O teu trabalho é extremamente plural, uma coisa que eu acho bacana nessa tua pesquisa musical, você vai à fundo. Como você trabalha esse seu lado de pesquisa, você deixa fluir naturalmente, ou não. Pára e vai lá e estuda?

RR: Não, absolutamente não páro e vou lá e estudo. A pesquisa às vezes dá a impressão de ser uma coisa. O objeto de estudo e o objeto pesquisado. E na verdade não é muito isso que acontece. Existem alguns lugares que eu frequento há muito tempo, onde eu tenho uma relação muito forte com essas pessoas. E eu acabei entrando muito nessa vida, tomando parte dessa vida e sendo parte dela e ela de mim. Entre outras coisas que têm alí, existe a música que é um dado visível. Então tem a Aldeia kariri de Xocó, que tenho amigos que cantam comigo. Os coros são eles que fazem. Alguns cantos são a mais de uma voz quando a gente faz junto. São amigos meus índios da Aldeia kariri de Xocó, que é um outro lugar que eu vou muito e uma grande escola pra mim também. Fui pra lá, um dos pincipais lugares que eu aprendi a cantar e que me influenciou bastante a escolher a música como profissão. A Umbanda, eu gosto muito, frequento várias festas. Então eu acho que esses elementos, eles estão muito na vivência. Eu toco Cavalo Marinho, sou rabequeira, fui em parte criada pelo Bill, Seu Luis – que são Folgazões de Cavalo Marinho. Me levaram para o Cavalo Marinho. Sempre quis tocar rabeca. Comecei a aprender tocar a rabeca com o Seu Luis. Ele melevou pro Cavalo Marinho. Cheguei no Cavalo Marinho para tocar depois de já muito tempo na casa do Seu Luis tocando com ele. É uma relação de vida. Não é aquela coisa, ‘vou lá pesquisar o Cavalo Marinho’. Aí também a Ciranda, porque a gente brinca de Ciranda a noite, saí todo mundo pra brincar. E isso tem influência também, porque você esta acostumado com aquela forma musical. Vou fazer uma ciranda…

CC: Que é uma delícia!

RR: É. Então os elementos vão se mesclando dentro de você. Você vai criando um caldeirão. E também tudo que eu ouço, tudo que eu gosto, acaba me influenciando. Sempre escutei muita musica clássica, música do mundo, música do norte da África, música Árabe, música Cigana. São coisas que sempre ouvi muito. E se você for ver, elas usam… A gente tem muita música da Mata, melodia com escalas que são muito parecidas com a música do leste europeu. Existe uma relação sonora, da estética histórica, se você for pensar nessas migrações todas. Mas não que eu parta desse princípio pra fazer minhas músicas. Eu acho que é uma coisa muito mais intuitiva, aí você começa a procurar, a descobrir outras maneiras de explicar aquilo que você sente. E não o contrário, partir de uma ideia…

CC: Estabelecida?

RR: É! Eu acho que o trabalho tem muito essa dinâmica.

CC: Você falou da rabeca, como foi o seu primeiro contato?

RR: Olha, eu sempre adorei instrumento de arco, mas estudava piano. Um menino na época da faculdade, ele tinha feito um violoncelo de cabaça pra ele, e me agradava muito aquela soronidade mais áspera. E tinha pedido pra ele fazer um pra mim. A gente saiu, comprou as cabaças, aí ele me enrolou e nunca fez. E de qualquer maneira ia ser difícil cantar e tocar violoncelo. Aí eu conheci o Seu Luis, um rabequeiro incrível. Conheci ele em São Paulo. Na época ele tinha ido fazer um festival. Ele é um rabequeiro da Zona da Mata. E falei que queria aprender a rabeca e tal e ele falou ‘vá la na minha casa, passe lá no Engenho do Grijó’. E eu fui. Nesse tempo meu irmão tinha me pedido uma rabeca e eu fui comprar e tinha uma rabeca pronta e comprei pra mim. Foi assim, de maneira causal. Gostava muito da maneira como o Seu Luís tocava. Não existe uma escola de rabeca, existem muitas escolas de rabeca, mas rabeca ensinada em sala de aula. Tem rabeca em vários luagares. No Brasil, na Península Ibérica, na América Latina. Mas em cada lugar ela esta relacionada, desde a sua forma até à sua técnica de tocar, sua afinação, quantidade de cordas, à tradição local. Então cada rabequeiro é uma escola, cada família é uma escola. E eu fui atrás da Escola de Seu Luis. Durante muitos anos eu passei longos períodos com ele. E aí, a partir de um certo tempo, ele me chamou pra tocar com ele no Cavalo Marinho.

CC: E como foi o seu contato, como você e o Antonio Pinto se conheceram?

RR: A, o Antonio Pinto. Engraçado, porque quando a gente foi fazer o trabalho a gente depois lembrou que já se conhecia, porque tínhamos tido amigos em comum. E a gente já tinha se conhecido em festas, a gente era amigo do pessoal do Mestre Ambrósio, do Siba. Através do Siba que a gente havia se encontrado, em 99, 2000, 98, alguma coisa assim, dez anos depois. Eu já tinha feito as gravações. Inclusive o Siba tinha produzido as gravções comigo em Recife e eu procurava alguém que trouxesse para o “Manto dos Sonhos” outros elementos. Por exemplo, que trouxesse um outro olhar para o “Manto dos Sonhos”, da suavidade, das ações aciganadas, dos quartetos de corda, das fanfarras. Eu tinha ouvido as últimas coisas que o Antonio tinha feito, e eu tinha gostado. Ele tem o mesmo… A sim, foram vários caminhos que nos aproximaram (risadas). Sou muito amiga do Beto Villares A gente já fez algumas coisas juntos. Que é também o produtor musical que trabalha com o Antonio. Inclusive, o Beto ia inicialmente produzir meu disco, mas nossas agendas não bateram mais depois que eu adiei a produção do disco pra fazer ´´A Pedar do Reino“, do Luís Fernando Carvalho. E quando eu voltei, choque de agendas. Então, já tinha visto muita coisa do Antonio, e a gente foi reapresentado, pela terceira vez, por uma fada madrinha que nós temos em comum, a Dra. Dulce. Que é uma grande amiga da família dele, amiga dele, grande amiga da minha família, minha amiga, que conhece a gente desde de pequeno. E ela falou assim ‘tem esses dois artistas, eu preciso colocar eles em contato, né? Vi os dois crescerem’. E na época eu estava procurando um produtor para o “Manto dos Sonhos”, pra mixagem e para as gravações extras. Porque as primeiras gravações eu fiz coma minha banda, com os índios. Que são os dados conhecidos, é aquilo que eu faço sempre, é a minha banda, são os meus migos com quem eu canto há vinte anos, a gente se conhece bem. Aquilo eu podia digerir e dirigir bem. Mais alguns outros elementos, que eu queria trazer para o trabalho eu senti a necessidade de alguém que tivesse mais propriedade. Por exemplo, os arranjos para o quarteto de cordas, e também um outro ouvido que não tá tão dentro como o meu. Um ouvido de fora pra trazer novas luzes. Ai, ele adorou o material, a gente se encontrou informalmente. Na verdade era informalmente pra mim, mas eu sabia que eles estavam conversando sobre isso, ele e a Dra. Dulce… A Dulce. Dra. porque ela é advogada e a gente brinca com ela: Dra Dulce. Ele ouviu, adorou, falou assim ‘vamos fazer’ eu ‘nossa meu Deus, (risadas), que ótimo, vamos’. Aí eu precisei me adaptar ao cronograma dele, e aí a gente começou. Outa pessoa muito importante nesse processo foi o Gustavo Lenza que é engenheiro de som e que também foi fundamental nas mixagens e trouxe um conceito final da obra.

Por Lucas Cabaña (@LucasCabana)

Deixe um comentário

Arquivado em Não categorizado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s