Mário de Andrade: figura emblemática, crítica e encantadora

Bom,

Há certo tempo que eu venho me enrolando para publicar algo aqui e agora nessa noite gelada decidi encarar. A partir de um estudo acadêmico, comecei a viajar num personagem histórico que me encantou e que pretendo estudar a fundo: o tal do Mário de Andrade, cara genial. O mais louco que a resenha acabou me levando a um ponto específico: existe uma lacuna imensa no jornalismo “cultural” atual, e isso é uma coisa seríssima, é terrível!!

Quando lê-se as críticas musicais de Mário então! Percebe-se a necessidade de novos críticos, de um jornalismo menos (desculpem a palavra) babaca e pago pela indústria cultural. Os textos de Mário chegam a nos fazer “ouvir”, e isso fica claro na compilação de artigos “Mário de Andrade – Música e Jornalismo”, Diário de São Paulo, Ed Usp, HUCITEC, São Paulo, 1993.(tem na biblioteca do Paço, novinho, mas tá emprestado pra mim! kkkk)

Vou dar um crtl+c e crtl+v no texto resultante dessa pesquisa! Boa leitura!

Abraços,
Isadora Flores

Desde o início, ao escolher a figura mítica de Mário de Andrade como protagonista desse texto, já sabia que não se tratava de algo simples. Tratar do autor de “Macunaíma” com propriedade, mesmo em torno de sua crítica musical (uma pequena parte de sua produção), é uma tarefa árdua e necessita de certo tempo de pesquisa. Mário desliza de Guido D´Arezzo à Guarnieri com perfeição, de forma que sua crítica musical permeie manifestações populares, danças dramáticas iberobrasileiras, música erudita entre tantas outras. Esse texto é baseado no artigo de Jorge Sidney Coli Jr: Mário de Andrade – Introdução ao pensamento musical.

Dissociar o escritor, crítico, poeta e músico, dentre tantos outros personagens de Mário é uma tarefa um tanto complexa, portanto, podemos observar que as suas ações se complementam alicerçadas por sua visão de mundo, e sua pesquisa por elementos identitários do Brasil. Mário foi detentor de uma imensa produção artística e crítica. Aqui focaremos em alguns fragmentos dessa produção a fim de desvendar características importantes dessa figura tão representativa. Segundo Jorge Sidney Coli, o período de sua produção crítica em torno da música foi extenso e teve duração entre 1928 à 1945, ano de sua morte (COLLI, p.112). Sua análise foi oficializada com o livro “Ensaio sobre a música brasileira”, onde Mário, no auge do modernismo, assume a tarefa de investigar e criticar a produção musical erudita e popular, apontando certas características nacionais, e criticando uma corrente “modernista verde-amarela” radical e fundamentada no “exotismo”, que se mostra contra a aceitação da formação identitária do nosso povo, fruto de tantas misturas e influências.

Neste livro, Ensaio sobre a Música Brasileira, Mário defende a ideia mais coerente de que o “nacional”, brasileiro é fruto de um hibridismo cultural, fugindo da ideia alienada do brasileiro “puro”, sem influências estrangeiras, e de que música brasileira deveria ser aborígene, feita somente por indígenas, etc.. Mário insiste que “É preconceito prejudicial repudiar como estrangeiro o documento não apresentando um grau objetivamente reconhecível de brasilidade”, e ainda: “O exclusivista brasileiro só mostra que é ignorante do fato nacional.” (ANDRADE, p. 26 e 27).

“A influência de Mário era tão significativa que o livro se tornou referência para compositores e intérpretes da época, por também trazer um certo caráter de normatização estética.”

No mesmo ano que escreveu o “Ensaio sobre a música Brasileira”, Andrade escreveu a obra “Macunaíma – O herói sem caráter”, uma das mais importantes obras da literatura brasileira, onde de forma cômica o personagem principal Macunaíma é apresentado como símbolo da identidade nacional, representando essa herança multi-étnica brasileira de inúmeras formas. No mesmo período em que o pensamento do autor atinge uma preocupação nacionalista mais desenvolvida, Mário teve a ‘audácia’ de sistematizar aspectos psicológicos da expressão musical, transformando essa compilação de estudos em mais uma publicação: Terapêutica Musical (1936). Segundo Colli, “a noção importante que logo se propõe é o conceito da música como arte dos valores dinamogênicos e cinestésicos: arte pura por excelência, ela é isenta de intenções discursivas imediatas”. Colli destaca também no pensamento de Mário a música como extraordinário meio coletivizador, “como nenhuma arte consegue tanto” e ainda o poder da música em rituais religiosos para o estado de hipnotismo, encantação. (COLLI, p 115). Apesar do poder abstrato da música, para Colli, Mário defende que a música tanto ética e psicológica tem uma gama de significações. (COLLI, p.117)

Em sua leitura em torno de obras clássicas, Mário demonstra extrema sensibilidade ao circundar e interpretar diversos elementos musicais, como em “Devaneios” da Sinfonia Fantástica, cólera de Isolda, etc. Essa normatividade de teorias para ele tange ao artista, não à arte como objeto. Colli afirma: “A música, de manifestação direta da sociedade, transformou-se em produto de uma vontade de expressão individual e gratuita”. Segundo o autor o período nacionalista da estética de Mário exigiu do artista a aquisição de um inconsciente nacional, para se conseguir uma produção intrinsecamente expressiva da alma brasileira.

“É a consciência política implacável do artista que fecundará nas obras e terá significância para ele.” (COLLI, p.22)

Nesta nova fase chega o pedido de uma consciência moral, e mais tarde histórico-social para a produção de uma arte que tenha significação no seu tempo. É a consciência política implacável do artista que fecundará nas obras e terá significância para ele. (p.122). Notamos que entre 1940 e 45, segundo Colli, para o poeta a música adquirirá uma função de luta política, contrapondo o pensamento do filósofo Sartre que defendia a literatura como a melhor forma de expressar essas posições. Para Mário a música era o fator mais permeável na sociedade, de aspecto coletivizador, “engajável”, por surtir efeito psicológico, emocional. Segundo Sidney Colli, nos anos de guerra e do “Mundo Musical” (Série de artigos do autor), o autor de Macunaíma constrói uma estética normativa que pressupõe a noção de obra como atuante e politicamente engajada, refletindo sobre a posição do artista contemporâneo e criticando a sociedade. Nota-se que a produção crítica de Mário buscava aprofundar o leitor ao universo estético, artístico, musical de forma até literária, um jornalismo cultural muito distante do atual, que infelizmente tende à mera informação e à propaganda, praticamente fomentado pela indústria cultural.

REFERÊNCIAS:

COLLI JR, Jorge Sidney Mário de Andrade: Introdução ao Pensamento Musical

ANDRADE, Mário Ensaio sobre a música Brasileira, Ed. Martins, 3 ed. 1972

Artigo: Macunaíma o Herói da Nossa gente, Revista SESC n° 89

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/artigos_teses/LinguaPortuguesa/Macunaimaheroidanossagente.pdf

Na escuta de textos: Olhares sobre a cultura e identidade: (USP)

Haydée Ribeiro Coelho: http://www.fflch.usp.br/dlcv/posgraduacao/ecl/pdf/via04/via04_12.pdf

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